Das mentiras que contamos aos nossos filhos

Quando era criança, um dos meus pratos favoritos era peixe. Mamãe fazia pelo menos uma vez por semana. Mas não era qualquer peixe. Tinha que ser peixe-batata. Se não fosse, não comia!

Ué, você não conhece peixe-batata? Nunca comeu?  Ele é um peixe que vive em águas profundas, e sua pesca não é uma tarefa fácil. Talvez por isso você nunca tenha comido...

O que? Você tá duvidando da existência dessa espécie de peixe??? Mas já não te expliquei que é um peixe raro!

Então faz assim: vá ao mercado mais próximo e peça peixe-batata! Você vai ver a cara que o atendente vai te olhar. Isso se ele não rir na tua cara, que foi exatamente isso que o cara que me atendeu fez diante da minha pergunta:

- Por favor, você tem posta de peixe-batata?

- Posta de que?

- De peixe-batata. Você tem?

- Quá quá quá!!! Eu acho que não existe esse peixe não!

- Escuta aqui (nessa hora a mão já estava na cintura), eu comi muito esse peixe na minha infância. E hoje resolvi que iria fazer para meu marido comer. Você TEM ou NÃO TEM o peixe? 

- Sua mãe que fazia pra senhora?

- Sim minha mãe... minha mãe... ah não, minha mãe!!!


E foi assim que eu descobri que NÃO EXISTE PEIXE-BATATA!!!

Pois é. Mamãe mentiu...

Você deve estar se perguntando: mas será que essa criatura não comeu peixe depois que cresceu?

Claro que comi. Comia o que me era oferecido, o que tinha no cardápio. Não perguntava que espécie de peixe que era. Mas naquela noite queria fazer um jantarzinho diferente para maridinho, e como ele não é muito fã de peixe, lembrei do peixe-batata da minha infância, que eu tanto gostava. Claro que ele iria gostar também!

Eu realmente acreditava no que mamãe dizia. Peixe-batata era bom e ponto final.

Também acreditava que cenoura fazia bem para os olhos, que espinafre fazia a gente ficar forte, que beterraba fazia bem para o coração...

Acreditava que bastava um  beijinho para o machucado sarar, que o coelhinho trazia chocolate e que a injeção não iria doer.

Acreditava em homem do saco. Em Papai-Noel eu nunca acreditei...

E acreditava que o peixe-batata era o peixe mais gostoso do mundo! 



* * *

Lembrei dessa história do dito peixe depois de uma situação que passei com a Isa dia desses.

Estávamos, eu e ela, no shopping comprando um presente para um amiguinho da escolinha.

Imagine a cena: corredores do shopping abarrotados de gente, loja lotada de crianças, pais correndo atrás de crianças, vendedores alucinados...

Fui para a fila. A Isa do meu lado, papo vai, papo vem e chega a minha vez. Abro a bolsa, pego o cartão e entrego para a caixa. Quando olho para o meu lado: cadê a Isabela?

Pensei: deve estar do meu outro lado, ou atrás de mim. Não estava. Cadê a Isabela???

Saí da fila e já comecei a procurar ali em volta mesmo... não tinha como ela ter ido longe... foram segundos...

Até então, estava relativamente calma. Pelo menos tentando...

Foi então que lembrei da porta e fui para lá. Minha preocupação era que ela saísse da loja. Quando cheguei, que olhei para os corredores e vi aquele formigueiro de gente, aí colega, a calma foi-se embora!!!

E quando a gente perde a calma, a gente não pensa.

Comecei a andar pelos corredores. Devo ter dado umas dez voltas, olhando corredor por corredor, chamando por ela, mas eu não a achei. Eu não enxergava nada, o desespero não deixava.

Engraçado como esse sentimento, o desespero, cresce dentro da gente. Parecia que ele iria sair de mim e virar outra pessoa. Era quase palpável.

Voltei para a porta e orei. Pedi à Deus sanidade para poder encontrar minha filha. Precisava retomar minha sanidade, porque já não estava conseguindo pensar direito no que tinha que fazer. E pedi também para que a Isa me enxergasse. Pedi à Deus que a Isa me achasse também.

Foi quando escutei " mamãe, olha o que eu encontrei!"

Que voz doce minha menininha tem!!! Escutar aquela voz foi a melhor coisa do mundo!!!

Quando saímos da loja, minha perna ainda estava bamba, e eu tive que sentar para conseguir conversar com ela. Expliquei o que tinha acontecido, falei do perigo que ela tinha corrido, das coisas ruins que poderiam ter acontecido...

 E agora, vendo o que passou e lembrando das coisas que tive que falar à ela (porque eu botei medo mesmo!) lembrei da minha infância, de quando o medo que nossas mães nos colocavam tinham como personagem o terrível homem do saco. Um personagem inventado para nos manter perto delas.

Hoje, mais do que ontem, o medo é um personagem real. E o homem do saco virou café-com-leite...

Que saudades da minha infância com peixe-batata!!!



Informações do nome verdadeiro do peixe horroroso lá de cima aqui.

















2 comentários:

Sofia 21 de dezembro de 2011 06:27  

Ana:
Adorei, a história do peixe-batata é bem engraçada e realmente as mães e avós mentiam para nos deixar perto delas. Se meu filho some, eu me desespero. Ele já sumiu quando estava com o pai e, graças a Deus, foi parar naquela central de atendimento do shopping.
O que eu digo a ele é que há pessoas muito malvadas, mas que parecem boazinhas, e que levam as crianças embora para nunca mais verem os pais. Ele sabe disso, mas continua correndo nos shoppings, na rua e na praia... coração de mãe fica do tamanho de um alfinete...
Beijão
Sofia

Ana Carolina 24 de dezembro de 2011 08:25  

Nem me fale Sofia!
Só não tive um treco pq tinha que procurar...
Botei tanto medo nela falando dessas pessoas que levam as criancinhas que quando entramos em outra loja, eu estava vendo uma blusa e uma mulher veio falar com ela: ah, que menininha linda!

E ela, mais do que rápido, levantou a mão como quem diz pare e disse: não me sequestre que eu tenho mãe! Ela tá ali!

Eu, a vendedora e a mulher caímos na risada!

Beijão!!!

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